Luísa Jacinto
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So many names na Fundação Carmona e Costa

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Break, 2026, Linhas de poliéster, resina, projectores e filtros, dimensões variáveis

pormenor de Break, 2026

Work in Space IX, 2026, Linhas de poliéster, resina, 124 × 192 cm

So many names, 2025-2026, tinta spray sobre poliéster, 260 × 2400 cm

da série Desconhecidos XVI, 2026, Membrana de borracha sintética, tubos LED, cabos eléctricos, cabos de aço, dimensões variáveis

Exposição individual com curadoria de Miguel Mesquita na Fundação Carmona e Costa
De 30 de Maio a 25 de Julho de 2026
Performances por Beatriz Marques Dias e Francisco Rôlo dia 30 de Maio às 12:30, e a 20 de Junho às 17h

Projecto apoiado pela DGArtes


Texto do curador Miguel Mesquita


SO MANY NAMES
Nomear é um acto de poder e de rendição. Quando damos um nome a algo, acreditamos tê-lo compreendido; reduzimo-lo ao reconhecível, ao catalogável, ao que pode ser dito numa só palavra. Mas há coisas e situações que resistem a esse gesto. Que o tornam impossível. Que nos devolvem à pergunta antes da resposta.
O trabalho de Luísa Jacinto tem-se constituído como um processo de exploração desses limites: os limites da linguagem da pintura; os limites do que uma superfície pode ser; os limites do que um espaço pode conter. Em So Many Names esse processo torna-se o tema. Não como declaração de crise, mas como afirmação de uma liberdade: a de existir entre categorias, de habitar a ambiguidade com precisão.
As obras desta exposição assumem formas diversas no espaço. São pintura, mas também escultura, também instalação, também arquitectura efémera, também atmosfera. Nomeá-las como qualquer uma destas coisas seria correcto e insuficiente. A translucidez é central: através de cada superfície vêem-se outras superfícies, outros planos de cor e de luz, criando uma profundidade que não é ilusória mas real. O espaço multiplica-se, os planos sobrepõem-se, e o olhar é convidado a habitar uma imagem que nunca se fecha sobre si mesma. É uma pintura que nunca se vê de uma só vez. A escala exige deslocação: o espectador move-se, percorre, regressa. A imagem constrói-se em fragmentos, pela memória e pela atenção, como a leitura. Lemos um livro e não lhe damos igual peso a cada palavra; construímos sentido pela selecção, pelo ritmo, pela memória do que ficou para trás. Relemos e encontramos outro livro. Estas pinturas funcionam da mesma forma: a imagem que delas se constrói é sempre parcial, sempre pessoal, sempre em processo.
Georges Didi-Huberman, ao escrever sobre Fra Angelico, distinguia o que se vê do que se dá a ver, o visível do visual. Há nas obras de Luísa Jacinto essa mesma tensão: a cor e a luz que as atravessam não são apenas percepcionadas, são experienciadas. A luz não ilumina a pintura – transforma-a, fá-la desaparecer e reaparecer, altera a sua presença no espaço. Expande-se para além dos seus suportes: os elementos formais que a constituem migram para as paredes do espaço, surgindo nelas em tons escuros, como sombras projectadas ou como a memória de uma forma que esteve algures e deixou marca. A iluminação cuidadosamente construída confunde essas sombras pintadas com as sombras reais, até que a distinção entre as duas se torna irrelevante. O espaço inteiro passa a ser campo pictórico, uma dissolução dos limites entre obra e ambiente pela acção conjugada da cor e da luz que encontra eco no trabalho de Ann Veronica Janssens, onde as condições perceptivas se alteram ao ponto de já não ser possível separar com clareza o que é obra do que é espaço. A pintura não está, acontece.
Os cilindros autoportantes que habitam o mesmo espaço colocam uma questão complementar. Feitos de fios de cor enrijecidos com resina, são simultaneamente linha e volume, processo de pintura e objecto no espaço, nem pintura nem escultura, mas algo que preserva a lógica de uma sem se fixar na forma da outra. A sua presença no espaço é também lumínica: iluminados individualmente, as suas sombras prolongam o seu desenho para além dos seus limites físicos, multiplicando-os e fundindo-os com o espaço que os rodeia. No conjunto da exposição, estas e outras peças inscrevem-se umas nas outras e aquilo que era um objecto autónomo passa a ser uma camada de uma imagem em constante recomposição.
Há neles também uma dimensão arquitectónica. Em certa medida, traduzem no campo da pintura o que na arquitectura a coluna livre de Le Corbusier fez à parede: libertam a cor do suporte, dão-lhe corpo próprio no espaço. E ao corresponderem ao pé-direito, estabelecem uma medida humana dentro de um espaço dominado por superfícies de grande escala. São uma escansão vertical, um ritmo que ao mesmo tempo ancora o espaço e o atravessa.
A performance, introduzida pela primeira vez no trabalho de Luísa Jacinto, resulta de uma intencionalidade em relação ao corpo humano em movimento, uma relação que a escala das pinturas já convocava – obras desta dimensão não se deixam ver sem deslocação, sem que o espectador se mova e, ao mover-se, perceba que o seu corpo é parte activa da experiência. Merleau-Ponty descrevia o corpo não como um objecto no espaço mas como aquilo que organiza o espaço; o esquema corporal como estrutura a partir da qual qualquer percepção se orienta. Ver estas pinturas é uma experiência inevitavelmente corporal: a imagem que se constrói depende de onde se está, de como se move, de quanto tempo se demora. Os performers tornam isso visível e consciente. O seu movimento pelo espaço não ilustra as obras – produz, para quem observa, uma narrativa da experiência de as habitar. E acrescenta algo que o olhar sozinho não consegue: uma linguagem do corpo que dialoga com a linguagem da pintura expandida, que torna legível a relação entre a escala humana e a escala das obras.
Em 1967, Michael Fried argumentava, criticamente, que certas obras introduziam na experiência estética uma dimensão que lhe seria estranha: a da duração, da presença física, do que ele chamou teatralidade. O que Fried via como desvio, a prática contemporânea reconheceu como condição – e em alguns casos, como matéria. A performance em So Many Names parte precisamente do reconhecimento de que obras desta escala exigem o tempo e o corpo de quem as vê, e que tornar isso explícito, dar-lhe forma e intenção, resulta de uma implicação artística. Trisha Brown, que trabalhou durante décadas a relação entre o corpo em movimento e a arquitectura do espaço, mostrou que a deslocação pelo espaço não é apenas física mas também compositiva: o corpo que se move está a construir uma imagem, a estabelecer relações entre elementos, a produzir sentido a partir de uma sequência de pontos de vista que nenhum olhar fixo consegue. É nessa tradição que a performance aqui se inscreve, tornando consciente aquilo que o olhar faz silenciosamente.
So Many Names. Tantos nomes porque nenhum é suficiente, não por insuficiência do trabalho, mas pela vontade de não se deixar conter. A multiplicidade não é indefinição, é condição: o que existe em vários registos simultaneamente recusa a univocidade como empobrecimento, e oferece-se como campo aberto. É nessa abertura que reside a sua liberdade, e quem as atravessa, a sua.

Miguel Mesquita
 

So Many Names tem início em 2025, com uma primeira apresentação no Córtex Frontal, em Arraiolos. Uma pintura de vinte e quatro metros num tecido translúcido percorria as salas do espaço numa cota constante, iniciando a setenta centímetros do chão e acompanhando a descida das escadas até emergir no jardim exterior a três metros e setenta centímetros de altura. A deslocação pelo espaço não circundava a obra mas conduzia o espectador a uma imersão progressiva na sua profundidade. O recorte desta peça, presente na actual exposição, é resultado da sua inserção na arquitectura de origem e a própria pintura resulta da relação com os elementos naturais durante o período de exposição. Numa segunda apresentação, no Museu Francisco Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco, no âmbito do festival Singular, a obra foi apresentada num novo contexto espacial e confrontada pela primeira vez com a presença dos performers, aprofundando as questões da auto-visibilidade da pintura e da sua capacidade de contaminação visual do espaço. A presente exposição constitui o terceiro momento deste projecto, reunindo e desenvolvendo as linhas de investigação que lhe estão na origem.
 


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