Véu-Pedra

Marta Mestre

Véu-pedra  


“Houve um momento”, conta Luísa Jacinto “em que entendi que não queria fazer apenas belas superfícies, mas enfrentar a vertigem, o acidente. É como um jogo de distanciamento onde procuro não dar tudo à primeira. Existe um certo risco, mas também um certo cálculo”. 

Estamos no pequeno atelier da artista, no centro de Lisboa. Faz sol, é Outubro e amontoam-se os novos trabalhos que irão entrar na sua próxima exposição. As chapas metálicas parecem estar numa espécie de limbo, entre o improviso e o acabamento, alguma coisa que está a meio caminho de outra, e que mais tarde Luísa Jacinto sintetizará com a expressão “calling material to life”. Um diálogo entre espaço, percepção e pintura, é o que a artista persegue. A frente e o verso da representação interessam-lhe de igual maneira. 

O título que escolheu é apropriadíssimo! Véu-pedra, assim mesmo com hífen, é um jogo de palavras que se friccionam, enigma dito pela boca de uma esfinge. O que importa não é exactamente ler-se aqui se o véu é de pedra, se a pedra é como um véu que esconde. Importa só a imagem, a evanescência espessa de uma metáfora. É também um título que sublinha a dimensão cognitiva dos materiais, assumindo cor e textura modos independentes de existência que subtraem o gesto da artista. 

O facto de Luísa Jacinto projetar toda a exposição numa ambivalência, que o título anuncia, faz pleno sentido, porque é a própria prática da pintura que procura tensionar. As chapas de metal foram trabalhadas como telas: primeiramente “agredidas”, depois pintadas, e a seguir endireitadas por potentes calandras e máquinas de quinagem para serem base de sucessivas intervenções pictóricas (“É muita tortura para uma chapa” dirá em entrevista). Já aquilo a que chamamos “pintura” é, em rigor, um labor alquímico de pigmentos (cádmios, iridiscências, castanhos, cobaltos), algo entre pulverização e decantação. 

Estamos, assim, em pleno território da pintura contemporânea, onde a “velha” maquinaria de representação do mundo já não se vale a si mesma, ou, como escreve Isabelle Graw, “onde a pintura abandona a sua antiga morada - que foi a imagem na tela -, passando a ser omnipresente em outras formas de arte”. 

Intrigam-me os desdobramentos futuros que a exposição Véu-pedra propõe. A dada altura da nossa conversa desviamos a atenção para os quadrados muito brancos, semelhantes a autocolantes de vinil, que Luísa Jacinto pintou em cima de algumas chapas de metal. Ficamos a contemplá-los como figuras autónomas e intrigantes... e posso olhar a partir do olhar de João Miguel Fernandes Jorge, autor de um belo texto sobre a artista.

Assim, leio a arte como rede interminável de sentidos, pondo em diálogo diferentes épocas históricas. De facto, vem-me à mente o caracol da Anunciação de Francesco del Cossa (c. 1470-72), que entra depois num memorável texto de Louis Marin. Estranha associação, mas ao mesmo tempo evidente, porque tal como o molusco gastrópode no quadro do pintor de Ferrara, também estes pequenos quadrados brancos são feitos para colocar em causa o estatuto da representação. Pintados sobre o quadro, mas não dentro do quadro, parecem estar mais próximos de nós e por isso menos integrados no interior da pintura. Acrescentaria ainda que desfazem a nossa credulidade (“it\'s all folks”), evitando-se assim o gesto mimético fundamental. 

O pensamento de Luísa Jacinto convida-nos a interpretações instigantes e talvez a artista não concorde comigo, mas finalizaria sublinhando que os (in)significantes quadrados brancos trazem uma abertura. Apontam um caminho. Pintura que se abre a novos meios? Auto-referencialidade? Sim, se nisso formos capazes de ver os modos como a pintura se debruça sobre o seu próprio discurso. No caso de Luísa Jacinto sempre um espaço entre ambivalências, ocultações e poesia. 

2019, Outubro, Lisboa 
Marta Mestre 



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