Um momento perpétuo

João Silvério

texto para a exposição An instant of this, galería silvestre, 2016, Madrid, Espanha

Um momento perpe?tuo A obra de Lui?sa Jacinto confronta-nos com imagens pro?ximas de situac?o?es auto-
referenciais. Essas imagens, trabalhadas em meios ta?o diversos como o vi?deo, o
desenho, a colagem ou a pintura, afastam-se da pra?tica do mapeamento do seu
quotidiano para construi?rem no espectador uma relac?a?o ficcional com
representac?o?es corpo?reas, por vezes fragmentos do pro?prio corpo da artista, que
nessa condic?a?o remetem para uma noc?a?o ano?nima dessa corporalidade e dos
gestos e acc?o?es que as suas obras revelam. Simultaneamente, este
procedimento introduz uma leitura ambi?gua entre o cara?cter i?ntimo do seu olhar
e o seu avesso mundano, sem, contudo, compreendermos uma refere?ncia visual
que nos indique o lugar e o tempo a que estes registos se referem. Por outro lado, nas suas obras os ti?tulos ganham uma importa?ncia muito
singular, estabelecendo uma rede de relac?o?es em que a palavra ascende a um
significado reconheci?vel, que Lui?sa Jacinto integra nas suas obras construindo
jogos sema?ntico-visuais que nos interpelam, como por exemplo na pintura
intitulada (em ingle?s) “Slumber”. Esta palavra, na sua traduc?a?o mais literal, pode
ser interpretada como sonole?ncia. Contudo, a imagem que esta pintura
representa mostra-nos um fragmento de um corpo numa postura jacente, como
um leito de morte em que a figura esta? coberta por um manto dia?fano, num sono
aparentemente perpe?tuo. Esta obra e? exemplar do trabalho da artista, tanto na
forma como trabalha e trata a te?cnica da pintura, ta?o plana como uma imagem
produzida por um outro meio, como na estrutura do pensamento que a suporta.
Vejamos enta?o o ti?tulo da exposic?a?o, “An instant of this”, que nos remete para
uma relac?a?o com o tempo e desta forma com a morte enquanto paradigma da
reside?ncia do corpo que resta, na morte da alma. Encontramos esta
corresponde?ncia entre a mate?ria e a energia na literatura, na histo?ria da arte e
nos modelos que toma como refere?ncia, mas na?o cita nem retrata. A raiz das
imagens encontra-se na proximidade que a figurac?a?o aparenta, como se de uma
se?rie se tratasse, mesmo quando estabelecem oposic?o?es e contradic?o?es convocando ideias e imagina?rios muito dispersos. Neste aspecto, a questa?o do
modelo e? especialmente interessante na obra de Lui?sa Jacinto, porque deste
nada resta a na?o ser a imagem residual, o ponto de partida para a obra
finalizada. Regressamos a? pote?ncia da palavra, presente no ti?tulo “Modorra”, ou
ainda numa outra pintura de dimenso?es reduzidas, intitulada “Read”. Aqui
retomo a questa?o das tautologias que a artista constro?i entre a imagem e a
palavra, num reposicionamento do seu olhar sobre a fenomenologia dos
acontecimentos e a subtracc?a?o que a sua pintura exerce sobre o contexto do
acto representado, presentificando-o para o espectador como uma categoria
universal, e desta forma como uma imagem matricial que resgata ao nosso
imagina?rio uma miri?ade de episo?dios visuais. A palavra e? aqui a reside?ncia seminal que permite o acontecimento da pintura
enquanto processo de construc?a?o de uma imagem picto?rica que se refere a um
dado momento da vida da artista: por vezes um encontro inesperado, por vezes
uma viagem em que o seu olhar fixou um acontecimento que sobrevive nas finas
camadas da pintura, enunciando um outro movimento que na?o e? possi?vel deter,
porque afinal a pintura e? o ponto de partida e nunca o lugar a que se chega. Uma outra insta?ncia da palavra, o poema, na voz litera?ria de Euge?nio de
Andrade, tem sido uma presenc?a constante para a artista. Um desses poemas diz-nos o seguinte: O lugar mais perto O corpo nunca e? triste;

o corpo e? o lugar

mais perto onde o lume canta.

E? na alma que a morte faz a casa. Joa?o Silve?rio Fevereiro de 2016



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