Os espaços em volta - Lugar, imagem e tensão narrativa numa pintura por vezes misteriosa

por Celso Martins

Os espaços em voltaLugar, imagem e tensão narrativa numa pintura por vezes misteriosa
Texto Celso Martins
São normalmente sugestivos os títulos das exposições de Luísa Jacinto (Lisboa, 1984). Aquele que escolheu para a mais recente é ainda feliz porque alude a algumas das características que vamos ver nela: espaço, tempo, fragmentariedade narrativa e um certo tom cinematográfico que se intui frequentemente na sua pintura. Nesta mostra programada pela Galeria Bessa Pereira exibem-se duas séries muito distintas mas que revelam uma subterrânea complementaridade. As grandes telas de “Threshold” podem ser vistas tanto com atenção às formas que constituem cada pintura como pela relação que estas estabelecem entre si e o espaço que as recebe. Nelas gera-se, de facto, um conjunto de limiares que funcionam como paradoxos visuais. Todas elas enunciam estruturas tendencialmente geométricas. Essa configuração é, porém, reorientada pelo tratamento das superfícies, que produz uma materialidade ilusória, esboçando o vinco, o amarrotado ou o velado e parecendo ora expandir o próprio espaço ora confirmar o seu fechamento, aparecendo-nos, respetivamente, caixas ou como passagens para um mais além a que não acedemos. Entre a abstracção e o reconhecimento, entre a tangibilidade e a evanescência, entre o bloqueio e a profundidade vivem num estado pendular que é, afinal, a oscilação do nosso próprio olhar e movimento junto delas.A outro tipo de instabilidade nos conduzem as pequenas pinturas da série “All I Want”. Alinhadas como stills de um filme, o que nelas se põe em cena não forma uma narrativa inteligível mas insinua-se cinematograficamente como se se tratasse de coisas vistas de relance que se fixam na retina de modo subliminar. Um quadril masculino, uma rapariga junto a um poste com placas, uma outra figura junto a arcadas, arquitecturas desabitadas, uma casa que arde são imagens flash semelhantes às dos sonhos ou das memórias. A sua afinada mise em scène começa nas dimensões, que pedem a aproximação do olhar, e confirma-se nos planos escolhidos que nos fazem sentir sempre demasiado perto ou demasiado longe do que vemos, num permanente descentramento, entre o excesso de evidência e o obscurecimento.Enquanto as pinturas maiores de “Threshold” se assemelham a ecrãs que nada mostram, as figuras de “All I Want” existem sem ‘moldura’ ou a estabilidade de um contexto. Uma condição é, porém, comum às duas séries. Na verdade, esta pintura define-se tanto pelo que mostra como por aquilo que não deixa ver. Num caso, esse programa orienta-se para a produção de um espaço que suscita ambiguidades perceptivas; no outro, lida com os protocolos da imagem e a simulação narrativa. Os dois exercícios fazem tangentes a campos de configuração espacial e visual paralelos à pintura (a arquitectura, o cinema) mas, ainda que por caminhos ínvios, é sempre a esta que nos reconduzem.



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