One always fails to speak of what one loves

João Miguel Fernandes Jorge

Catálogo da exposição Basta um só dia, Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, Açores, Portugal, 2012

ONE ALWAYS FAILS TO SPEAK OF WHAT ONE LOVES



Philip, tiro o chapéu ou continuo com ele posto? Estou dentro de uma casa, ou estou fora? Frank Lloyd Wright a Philip Johnson, ao entrar na sua «Casa de vidro»



     O título deste texto sobre a exposição Basta Um Só Dia (pintura, desenho e vídeo) de Luísa Jacinto, no Museu Carlos Machado de Ponta Delgada (Junho de 2012), parte do título de uma das pinturas presentes. «Sempre falhamos ao falar do que nós amamos», dito assim em português, com uma amplidão sonora bem mais baixa do que as palavras do título em inglês lhe conferem, traz a essa pintura (2011, óleo sobre mogno, 20x30cm) um silêncio acrescido que nos chega em cor de fogo. 

     Quando vi o conjunto a seleccionar para esta exposição, um desenho de Odilon Redon, «O Homem com asas» ou «O Anjo caído» (c.1875, 24x33,5cm, Museu de Belas Artes, Bordéus) atravessou-se sobre as imagens de Luísa Jacinto, a propósito da amargura que tantas vezes a própria cor introduz nas suas personagens, nos seus relâmpagos perceptivos que, sobretudo na pintura, nos são transmitidos como se uma lente aumentasse um instante, um fragmento do vivido. Quase sempre — se não sempre — a sua pintura — e como ela tanto se amplia nas pequenas dimensões — está no mundo (dessa mesma pintura) como o coração num organismo. Quase sempre para deixar que surja numa espécie de ensaio pictórico — muito simples, com uma ou duas figuras — sobre a aparição de quem tenta e falha e hesita e silencia na cor do reduzido espaço em que se fecha (enquanto personagem em cena) na sua aventura do outro (e de si mesmo) e permanece em queda e erro no acerto sobre as palavras acerca do que nós amamos e muito, provavelmente, também acerca de quem é amado. 

    As duas personagens de «One always fails to speak of what one loves» aguardam.    Como tantas outras figuras, quase de um modo obsessivo, vamos encontrar-lhes numa repetição de expressão e de gestos, na sua breve aparição (pintada), uma espécie de conceito perene. Um eco que se reflecte a partir deles. Personagens que são como dois anjos caídos, semelhantes em ânimo ao que encontrei no desenho de Redon, com as asas devoradas pela cor de fogo que os envolve aqui. O rosto já não lhes é muito nítido. Um pouco corroído pelo incêndio da cor diz-nos da sua incapacidade acerca das palavras sobre a existência do ser ou da coisa amados. Fixamente parecem estar ali, na película da pintura, roubados ao filme das suas paixões, fúrias e mágoas. Nada permanece igual por dois segundos, todavia procuram uma forma de perenidade. Talvez por isso mesmo o fogo veloz dá-lhes uma razoabilidade de contrários: fixa-os; e eles parecem inescapavelmente cativos do seu modo real. 

     A pintura dá-nos um vocabulário complexo, em toda a sua simplicidade de meios. Há nela um som de incandescência contínuo — de um contacto que é um eterno presente, de uma incalculabilidade — que se quebra  a espaços, para ir além de uma e outra e outras pinturas executadas em tempos que vão de 2007 até ao presente. Mas essas duas figuras sobre a têmpera do fogo, elas mesmo em fogo de silêncio e suspensão, parecem a voz do transitório e do perecível que vai e vem como a respiração humana, enquanto ao redor as coisas do mundo ardem e, todavia, deixaram há muito de respirar e jazem quietas na (i)mortalidade. 

     Há uma tríade fenomenológica no trabalho de Luísa Jacinto — o sujeito, a arte (enquanto pintura, desenho e vídeo) e o mundo —, que se desdobra e anima através de um contacto profundo com as coisas aparentes do sentir. Que conduz as desenhadas figuras, suportes de corporeidade e de presença anímica que são o sujeito, a um mundo. Mundo que tem somente sentido para ser contemplado, já que em si mesmo não é nada mais do que representação. Provavelmente esse próprio mundo se confundirá com a arte (pintura, desenho, vídeo) que é suporte e experiência e mesmo consciência das qualidades sensíveis, de certas intensidades ou da fisionomia motriz da cor. (De notar quanto estes três aspectos são determinantes da progressão e do equilíbrio/desequilíbrio criado entre os desenhos das séries Resistir e Flora.)

     Os muitos rostos de Resistir (2011, guache ou ecoline ou óleo, gesso, acrílico sobre papel, 30x42cm), as inúmeras cabeças de mulher, hieráticas, prontas à corrosão do tempo e das cores captam uma imediata intuição. A cor invade, surpreende na sua própria repetição de rosto, de cabeça, de valor vital a ser destruído. Tem o desenho — a sua arte — o poder de reproduzir as coisas, de as criar, de as fazer ascender a uma aparência que é um rosto. Um rosto, uma cabeça que se vão repetir como um valor inato de uma especulação sobre si mesmos: rosto, cabeça. Manifestação visível, o rosto, a cabeça resistem surpreendidas pelo pathos, pois o mundo em que vivem é somente uma aparência, uma ilusão, com consistência de sonho. As cores, por vezes aguadas, por vezes gritantes invadem, quebram a resistência, corroem na representação os lugares que foram olhos e boca, para depois alcançarem um grau ardente e perdurável de intensidade. 

     As florações expressivas de Resistir como que se prolongam na série Flora (2011, várias técnicas e várias dimensões, sobre reproduções das gravuras botânicas de The Temple of Flora, de Robert John Thornton, c.1787-1837). Estes desenhos com colagens introduzem um pouco, no trabalho de Luísa Jacinto, a noção de que o mundo das coisas não é um sonho caprichoso e arbitrário (mesmo quando a imagem nos envia para visões de artifício), mas o seu nexo com o escondido é necessário e impossível de suprimir. Este lado quase sonâmbulo da imagem dá peso ao sujeito, uma necessidade tão vivida na sua pintura e igualmente actuante nos vídeos. De certo modo, o sujeito que refiro existir nesta obra tem as suas raízes num mundo escondido, que dá sucessão, conteúdo e duração a títulos de pinturas como «Real», «Procurar», «Perto», «Transbordar» ou «Acção».

     «Real» (2011, óleo sobre mogno, 20x30cm) mostra-nos uma figura masculina, que estende uma das suas mãos para uma parede. «Procurar» (2011, óleo sobre tela, 100x146cm), a representação de um homem — a luminosidade de um amarelo leva a que se crie uma ilusão com a sua imagem, que se desdobre em sombra, ou que se prolongue num provável cão que pode igualmente confundir-se com uma espécie de centauro. «Perto» (2009, óleo sobre painel, 10x15cm), dois corpos de homem, expectantes, um sobrepõe um braço sobre o ombro do outro. (Este sentido de expectação, de espera, que se repete amiúde no trabalho mostrado — veja-se, por exemplo «So many names», 2011, em que um braço protege o olhar do outro, uma espécie da expressão «até onde a vista alcança» —, vem carregado de um movimento suspenso e de um sentido captável de esperança, não só como sentimento, mas sobretudo como coisa quase palpável que ainda resta e que as personagens pressentem.) «Transbordar» (2010, óleo sobre tela, 100x146cm) abre para um cenário de iluminação oriental, em que as figuras vivem uma cena como que pedida a um filme de Zhang Yimou, em que se relata de um modo estático (ou melhor, em movimento lento) a passagem de um barco para uma bóia de borracha de uma jovem. «Acção» (2011, óleo sobre tela, 60x80cm), sobre um vermelho de fundo, uma mulher sentada. Envolvem-na um peso temeroso, o momento exacto antes de agir foi captado. 

     Passar quase aleatoriamente de uma a outra pintura, sem nos preocuparmos com a sua cronologia, só de uma forma aparente nos traria contradições performativas. A obra presente de Luísa Jacinto constrói-se através de um intricado campo relacional entre a fisicidade e a espiritualidade. Aproximemo-nos de um dos seus pequenos óleos (sobre mogno), «Overflow» (2011, 10x15cm — e estas dimensões têm sido na pintura uma das actualizações mais recorrentes do seu dizer), para observarmos uma casa entre vegetação. Casa que parece planar numa superfície líquida, espelhante do mundo vegetal circundante. Esta pintura (da qual se ausentou a figura humana tão comum à maioria das obras) não representa de um modo exclusivo a formação de uma matéria. Ela é, a um só tempo, essa circunstância de se ter desenhado e pintado casa e vegetação e de se ter pesado com tonalidades, sombras, cores — espaço de feitura e de matéria —, como valia intensa de uma expressão anímica, de um sentido, de uma emotividade. Em boa verdade, tudo aquilo que lá está contido, tudo aquilo que é a pintura «Overflow» é a pessoa da artista, é o seu próprio sujeito. O seu modo de ser sujeito no instante, no segmento de tempo em que fez, em que estabeleceu o seu domínio sobre os 10x15cm de  placa de mogno útil. 

     «Overflow», como «Espera» — (2009, óleo sobre tela, 61x61cm), que nos oferece, numa tradição de película fílmica, um campo aberto (aspecto usual no seu trabalho) onde a acção pertence ao estatismo de uma mulher e a um homem, que em si mesmo se recolhe sob o peso de um drama — reflectem a espiritualidade por inteiro do seu tempo. E perguntarão: «Assim, de um modo tão estático, tão contido, em que parece nada se mover?» A resposta será: «Aí se situa a transferência exacta do mundo vivido para a arte que Luísa Jacinto faz. Exprime o momento da sua história e da sua duração e da latência expectante que introduz no seu fazer. O seu ethos, a sua Weltanschauung, a sua maneira de ser e de sentir estão presentes como realidade sujeito e, sobretudo, como maneira de formar problemáticas de silêncio — em pintura, em desenho ou em vídeo — que entre 2007 e 2012 vão surgindo entre pólos de energia. 

     As suas personagens, bem mais reais do que ideadas, vêm acrescidas de um paradoxo: da possibilidade do impossível. Lembram tanto a placidez oriental da pintura de Liu Xiaodong (em «Transbordar», por exemplo), como a brutalidade da pintura de Dana Schutz em alguma crueza da cor, na pose ácida de muitas figuras que contemplam a corrosão de um tempo (sem) futuro. E, todavia, o objecto pintado está aparentemente sereno. E, todavia, todas essas figuras estão ali, estão aqui para uma experiência do impossível e fazem um apelo preciso a aspectos (muito) além da arte: à ética, ao direito, à política, à responsabilidade, à decisão. 

     Esse será o lado escondido, que uma desconstrução poderá exigir das duas faces presentes em «Precipice I» (óleo sobre tela, 50x70cm) e «Precipice II» (2011, óleo sobre mogno, 20x30cm). No inverno do gelo e no calor do estio deparamos com a presença e a ausência, com uma dimensão hipotética e condicional, com um diferença entre um «há», um «é» e um «existe» e o jogo necessário (pictórico) dos seus opostos pelas negações. Enquanto há «inverno» em «Precipice I», não existe aí a presença de verão, mas este «é» na pintura «II», onde por sua vez não figura a coloração e a temática do inverno. Aspecto que se desenvolve numa ordem de possibilidades, que vão de um imaginário virtual à mobilização de um desenho de gestos quase audível, partícipe de ordem, de razão e de sentimento (e também de enigma — que nunca deixa de atravessar todo este trabalho), como é o que sucede no belíssimo tríptico «Lentamente» (2009, óleo sobre painel, 10x15cm cada). 

      Nesse tríptico é irresistível não encontrar um pendor narrativo. Um «como se». Se em muitas das pinturas frente ao quietismo ( e mais do que quietismo, intimismo) da figuração é legítimo (um ilegítimo) «nada se passa» ou «um nada acontece», em «Lentamente» há (pintado) um acto performativo. Temos a presença de mãos que falam, que representam um S e que são pertença da figura P. (S é P). S deixa-se comandar pelo speech act performativo de P, de um sujeito P. Deste modo a pintura produz com aquelas mãos que evoluem e com aquele rosto de homem, por fim, um horizonte controlado e programado, uma ficção legítima e mais do que isso uma conivência com potenciais leitores/espectadores. Tudo isto se passa na singeleza de três páginas, perdão, de três pequeníssimos painéis. Mas essa limpidez de imagem de «Lentamente» não esconde por completo o que poderemos posteriormente ver no desenvolvimento da série Resistir, em que um apaziguamento e um quase esquecimento de si, enquanto figura que se esconde por detrás de traços de desenho de estatuária, se aproxima e expande de um processo de implosão da cor, que dentro desse padrão de rosto e cabeça vai da apatia, à justeza de um fuck off. (Intencionalmente Resistir será em grande parte mostrada em duas vitrinas, e de forma aleatória.)                                                               

 

     The Promise and The Dream (2009, 4´), Things Change Quickly (2010, 11´30´´) e Basta Um Só Dia (2012, 5´12´´) são os quatro vídeos presentes. 

     The Promise inicia-se com uma imagem que quer com exactidão ser uma coisa: um copo com água que tem um ramo de salsa muito verde. E a coisa apresentada é uma límpida imagem. Inicia-se sobre esse espaço de equilíbrio a queda de um líquido: branco, espesso, branco sujo, aparentemente caramelizado. E todo o espaço de beleza natural, que assistia ab initio, vai ruindo: as folhas da salsa ficam lassas, murchas e tombam das bordas do copo. O líquido alastrou ao redor. Fecha-se a imagem. Abre-se de seguida para The Dream. Nada resta do anterior copo, nem da salsa, que murchou. Apenas resta o líquido, espalhado sobre o chão. Um branco espesso, acastanhado. O rosto da artista irrompe. Desce por três vezes sobre esse líquido e lambe-o.

     The Dream fez intervir o sujeito criador da acção — a artista — como uma divindade ex-machina. Desceu para intervir, como quem nos quis dizer (o que de resto tem veladamente indiciado em todas estas obras desde 2007) que existe um reino escondido por detrás (da aparição) das imagens.

     Things Change Quickly. As coisas, de facto, mudam de pressa. Mas sempre fica um lastro, através do qual a sua fisicidade coincide para além da mudança. Esses resquícios de sinais duram para lá do estado psíquico daquele que a eles assiste. Tudo começa neste vídeo com o volume branco de um lençol. A sua composição segue a vida de uma personagem (semelhante a qualquer das que encontrámos no isolamento das pinturas) num apartamento de cidade. O tema dos pequenos gestos e de uma observação contínua a um quotidiano sucedem-se, como pequenos golpes feitos na imagem pelo escopro de um escultor, na procura de interrogações e de uma forma futura. A manhã é vista para além da janela. A hera numa parede; a sombra dos ramos de uma árvore. Pressentimos um olhar de melancolia — ou será antes de saudação à manhã nascente? 

      A composição desenvolve-se sob um carácter orgânico — o da figura que vive o dia dentro da casa e a acção do tempo, que vai ser pontuado pela passagem do dia à noite, e de novo ao regresso final à luz da madrugada seguinte. A projecção geométrica de uma sombra, vinda do ângulo de uma porta entreaberta. Os azulejos de uma casa de banho, a água a correr para um banho, a espuma, reflexos da luz na água, múltiplos brilhos. E logo a água a correr em vórtice, para libertar por fim o metálico brilho do aro esférico do ralo. O plástico da cortina, molhado. É um vídeo que evidencia objectos físicos. Eles estão a ser percorridos por uma determinada figura. Dessa figura apenas nos são dados, como reflexos seus, «coisas». Isto é, a evidência de um mundo físico. Mas pertence ao vídeo mostrar-nos mais; e o que nos está a mostrar diz respeito à impenetrabilidade de um mundo espiritual. 

      A noite cai. Na solidão do apartamento a visão da luz da noite. As gotículas de chuva que se prendem em muitos brilhos aos vidros da janela. A ilusão, mesmo, de um céu com estrelas distantes. O candeeiro na rua. A chuva. Os ângulos de luz. A porta que ficou, de novo, por fechar. A luminosidade abre-se na palidez do sono e reflecte-a na parede de uma das divisões, num azulado campo visual. Regressou o dia. Sobre as árvores. Sobre os ramos. E a água no banho voltou. Explicita um azul fugaz que sobre si mesmo se fecha.

      Basta Um Só Dia. Este vídeo de 2012 é o título da exposição. Poderão ser muitas as leituras para uma aproximação a estas imagens. Degraus que nos dão um contínuo descer. Pode muito bem guardar uma síntese de todo o trabalho que está a ser mostrado no Museu Carlos Machado. Envia-nos para um movimento compassado, degrau a degrau. Que encontramos na sua pintura; como igualmente nos diz de uma descida vertiginosa, de quem pode fazer destes degraus de escada — que passam de escada para escada — como que uma fuga para dentro de imaginado labirinto. Comparável com a água que corre após o banho no vídeo Things Change Quickly. Os degraus, breves, introduzem uma plasticidade de leitura micrológica. A fuga pelo vulnerável e pelo sensível é o que primeiro ocorre. Mas de imediato uma meticulosa densidade invade de assalto o acto pensado e físico do seu descer. 

      Os degraus subentendem a presença de hierarquias. De certo modo elas estão latentes na sua própria construção, no seu desenho e uso, na sua funcionalidade. Sobre esse estar feito material — os degraus —, como que se transmite a presença de um olhar inflexível que origina uma prática de fuga. Ouvem-se passos, não se vê ninguém, mas os degraus estão a ser descidos por um olhar. Por um olhar em fuga. Por um olhar subversivo. As hierarquias, os agenciamentos — os degraus representam ambos — são formas que permitem a fuga a um mundo inabitável.

     (A própria figuração de Luísa Jacinto diz a cada instante: «Nós somos deste mundo, mas neste mundo sentimo-nos estrangeiros entre estrangeiros.» E, todavia, gravita quase sempre numa aparente serenidade.) 

     Basta Um só Dia trouxe-me consigo um espaço sonoro. Porque está construído por visíveis fragmentos de escadas. Que no seu suceder nos oferecem a ideia de fuga. porções de degraus, que são etapas, tal como as encontro na Arte da Fuga de J. S. Bach. Contrapuncti que se sucedem e que no fim permitem o (i)limite da fuga. A fuga, no fim do último degrau de Basta Um Só Dia — em junho de 2012 — terá lá fora a fronteira ilha. E no vórtice da descida, a ilha irá ranger ligeiramente, como um casco de barco quando o vento levanta a vela.                                      

                 

                                                              João Miguel Fernandes Jorge

             



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